quinta-feira, 5 de maio de 2011

O voluntário Damian Steppacher e sua experiência na África do Sul


Em entrevista, gaúcho revela maravilhas e problemas da Copa na cidade de Durban

Damian Steppacher: energia para organizar a Copa de 2014 (crédito: Arquivo pessoal)
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Regina Rocha - São Paulo
postado em 24/08/2010 14:54 h
atualizado em 25/08/2010 07:50 h
Voluntariado é, ao mesmo tempo, uma oportunidade de trabalhar fora, fazer amigos e entrar em contato com culturas diferentes, diz o jovem gaúcho Damian Steppacher. E, claro, um meio interessante de viajar para o exterior, ganhar experiência, sem estar necessariamente de férias. Porto-alegrense, e torcedor do Inter, Damian foi selecionado para ser voluntário em Durban, durante a Copa da África do Sul. Passada a aventura africana, sua preocupação agora é divulgar a experiência, para que esta ajude no planejamento do próximo evento no Brasil.

Durban foi sua primeira experiência como voluntário? Sim. Tenho buscado os programas de voluntariado há algum tempo, mas esta foi a primeira vez que deu certo. A África do Sul foi uma grata surpresa! Me inscrevi, por exemplo, para a Copa da Alemanha, os jogos de Vancouver, as Olimpíadas de Atenas e outros eventos esportivos, e cheguei a ser selecionado em Atenas. Mas foi tudo muito em cima da hora, faltou tempo para me preparar e tive que desistir. Agora, terminada a Copa africana, continuo tentando, e já me inscrevi para a Copa do Mundo de Rugbi de 2011. Aliás, eu e meu amigo de infância Renan, que me acompanha nestas aventuras. Ele viajou comigo para a África e, juntos, construímos umblog , no qual deixamos muito material para ajudar os que quiserem fazer o mesmo.
O que o levou a viajar à África do Sul: gosto por futebol, ou por viagens, aventura, experiência...?
Para mim, o trabalho voluntário é, antes de tudo, uma oportunidade para viajar, ter uma vivência diferente da realidade no Brasil. É como "trabalhar fora", e também uma chance de conhecer pessoas, interagir com outras culturas. Já tinha viajado antes com a família, mas a turismo, de férias. Mas quando o assunto é emprego, fica tudo mais difícil, limitado. Então o voluntariado surge como um modo de praticar o trabalho fora.
Mas e futebol, você gosta?
Gosto sim, torço pelo Internacional. Mas sou um atleta meio frustrado. Até quando estou jogando bola, basquete ou outro esporte que me atrai, na verdade minha motivação maior é usar o esporte como possibilidade de me relacionar, fazer amigos, conversar. Sou formado em Administração (pela UFRGS), e tenho grande interesse em gestão de pessoas. Prefiro portanto os esportes coletivos, em grandes eventos como a Copa do Mundo. O trabalho voluntário é, antes de tudo, uma oportunidade para viajar, ter uma vivência diferente da realidade no Brasil
Conte sobre o processo de seleção que o levou a Durban. Você escolheu a área ou a função que desempenharia, ou a decisão coube à organização do evento?Fiz minha inscrição em julho de 2009 e fui chamado em fevereiro de 2010 para uma entrevista em São Paulo com o cônsul da África do Sul. Ao preencher o formulário já fiz minhas opções e escolhi Durban, por ser uma cidade quente e agradável. Podia escolher entre três áreas de atuação, e minha opção, como disse, foi administração. Trabalhei como gestor do centro de voluntários. Dava suporte ao comitê organizador local da Fifa e, entre os voluntários, auxiliava na parte de alimentação, no controle do ponto e nas muitas tarefas do dia-a-dia. Éramos cerca de 500 voluntários nessa cidade. Em dias de jogos, auxiliava o público a encontrar seus lugares, o local da lanchonete, do caixa eletrônico. Cuidava dos uniformes e de distribuir os vales de alimentação dos voluntários. Dava suporte também aos meios de comunicação, fornecendo informações aos mídia center dentro do estádio.
Quais requisitos acha necessário aos que pretendem ser voluntários?
Em primeiro lugar, é fundamental ter desenvoltura num idioma, normalmente o inglês. Nessa língua eu falei durante 90% do tempo na África. Também é determinante dominar mais outro idioma, o espanhol, por exemplo. Outro fator importantíssimo é, no momento da entrevista, mostrar um "brilho no olho", que está animado e com muita vontade de participar da atividade. Inclusive deixar claro que está abrindo mão do trabalho ou do estudo só para dedicar um tempo à atividade. Na triagem, quando me vi diante do cônsul africano, estava nervoso, ainda mais com dois assistentes na sala anotando tudo e fazendo observações a meu respeito; mas me esforcei por manter um clima otimista, e foi tudo bem. Alguém poderia pensar no item aparência, mas, pelo menos para mim, não contou muito. Tinha feito uma viagem corrida de Porto Alegre a São Paulo, cheguei cansado, sem tempo nem para trocar a camisa, e foi assim que me apresentei.
Fale sobre a experiência na África: o que funcionou e o que não funcionou?
Na minha opinião, houve dois pontos falhos na organização: segurança e tratamento dos voluntários. Quanto à segurança, falhou ao permitir a venda de ingressos no entorno do estádio, por exemplo; e na revista para entrada, que não funcionou bem, em meio a confusões como a entrada em greve dos seguranças, por falta de pagamento, coisas assim. Já quanto aos voluntários, por exemplo, houve compromissos não cumpridos, como a ajuda de custo -transporte, alimentação- que acabou não acontecendo, ou feita parcialmente e com atraso.

Isso, apesar do que o voluntário já arca para ir a um evento como esse, não?
Sim, em geral o voluntário internacional deve ir preparado, porque sabe que vai gastar mais. No meu caso, só de passagem foi US$ 1.400. Para os 30 dias de Copa na África, foi preciso reservar de três a quatro mil dólares. Foi importante se precaver, porque vimos -e estranhamos- que muito do que havia sido estabelecido contratualmente não foi cumprido. Independente dos problemas, quem segue como voluntário leva algum dinheiro, porque quer aproveitar as horas vagas, viajar um pouco, se divertir...
Quais as impressões de Durban? Você fez passeios em outros lugares, também? 
A cidade superou minhas expectativas. As pessoas te recebem muito bem, a infraestrutura é boa, com vias largas e asfaltadas. Há muitos restaurantes e opções de lazer, e fiz amizades com famílias indianas, que são comuns em Durban. Também pude viajar tranquilamente, porque as estradas são  bem sinalizadas. Visitei praias limpas, com mar de água quente. Ao norte de Durban, visitei o estuário de Santa Lúcia, fiz safari noturno, vivi algumas aventuras com leões, rinocerontes, enfim... No interior, subimos montanhas nevadas, atravessamos a fronteira de Lesoto, vimos povoadinhos interessantes, mas também vendo a pobreza, aprendendo sobre outros povos.
E seus planos para a Copa no Brasil?
Pretendo participar ativamente de 2014. A África do Sul tem problemas semelhantes ao Brasil, e acredito que a experiência que vivenciei lá pode servir aqui. Acho perfeitamente possível este paralelo entre África e Brasil, porque em alguns pontos os problemas podem vir a se repetir. Assim, desde que voltei estou fazendo vários contatos, falei com o Comitê da Copa, com a diretoria do Inter, e me dispus a dar palestras, apontar sugestões para quem quiser mais detalhes dessa nossa experiência.

"Quero participar ativamente de 2014. Tenho certeza de que, para termos sucesso, precisamos nos preparar bem. E isso passa pelo cuidado que dispensaremos ao voluntário internacional, este apoiador tão especial, que vem movido a ânimo e alegria".
Qual a sua sugestão para a Copa 2014 ser melhor do que a anterior?
Em primeiro lugar, planejamento. Porque a visão correta é a de que a Copa será uma grande oportunidade, com recursos para reconstruirmos nossa infraestrutura, um legado que se estenderá para os próximos vinte, quarenta, cinquenta anos. Além disso, devemos cuidar superbem do voluntariado. Dar condições de bem-estar ao voluntário internacional: que ele tenha transporte, acomodação, alimentação e faça uma boa experiência, marcada pela alegria de ser voluntário. É fundamental que haja suporte e treinamento, que o voluntário seja uma pessoa preparada e conheça bem o estádio onde atuará.
fonte: portal 2014

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